9 de ago. de 2014

O sonho do Gothd


O dia de Robert não começara bem. Queimaduras, sons irritantes e neve exagerada. E agora ainda havia um jantar nem um pouco desejado pelo Gothd. O braço ainda doía.
    – E então, Robert. Quais são os seus planos para o futuro? – perguntou Surley. Como se aquilo fosse comum, Robert falou:
    – Viajar, conhecer o tenebroso fundo do Mar Sombrio e descobrir o que há nas Ilhas de Ouro.
    – São desejos bem inexpugnáveis que qualquer criança iria pensar – quando a Grande Cobra disse, ouviram-se risos no salão.
    Robert sentava num barril virado numa mesa de trinta lugares. Estavam lá navegantes, artesãos e alguns poucos ferreiros. A maioria servia-se de um bom vinho branco com pedaços de javali. O animal estava assado e estirado na mesa com cebolas e verduras e um tomate nas presas. Robert hesitava em comer as partes do animal, pois se lembrava da velha cozinheira que em muitas vezes esquecia-se de lavar o bicho.
    – Não são inexpugnáveis. Nada é inexpugnável, caro Cobra.
    Robert Gothd era esguio e pouco corpulento. Vestia uma fina seda pintada de ouro. Sua mão dissera-lhe que o amarelo trazia sorte os Gothd. Aliás, ele mesmo não sabia o que fazia ali. Ficar trabalhando numa loja de pesca não era uma boa profissão. Já não aguentava ficar sempre seguindo ordens de sua mãe. Queria ir para guerra. O pai foi retirado do poder de Sublíder do Exército Sowliano após trocarem a rainha por uma Kallister sem nenhum sentido profissional. A último opção era que Sandor Gothd virasse Chefe Naval do Porto. Mas que chefe? O chefe dos peixes que todo dia ia lavar os animais e depois por em barcos? Robert cansara-se disso. Queria empunhar uma espada, não um peixe ou um caranguejo.
    Robert levantou-se, limpou a boca e saiu andando livremente a passos curtos pelo Castelo da Enseada. Que ótimo! Sua futura esposa sumiu, ou melhor, teve um surto mental; o pai virou vendedor de peixes; e mãe deixou de ser a Senhora Gothd para ser a Senhor dos Moluscos.
    Nada é inexpugnável, será que isso era verdade? Ou apenas uma grande farsa de crianças? A mente do Gothd estava embaralhada, sem sentido algum. Foi aí que se viu observando as embarcações indo embora, para longe, para a guerra naval. Queria entrar lá e guerrear. Mas não podia.

    Nada é inexpugnável, a frase voltou à cabeça dele. Levantou-se e correu para perto do último barco que partia para longe. Com a vontade de lá entrar, Robert correu para um dos barcos e agarrou-se no casco do primeiro. Quando a embarcação saiu, já no mar, seu coração disparou e ficou batendo simultaneamente. Sentiu que ia explodir e foi aí que viu se dissipando na água. Era como um ácido. Agarrado ao casco, Robert pulou na água e o barco passou por cima dele, destruindo seu corpo. O Gothd deixou de sonhar para ver a realidade.

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