O
dia de Robert não começara bem. Queimaduras, sons irritantes e neve exagerada.
E agora ainda havia um jantar nem um pouco desejado pelo Gothd. O braço ainda
doía.
– E então, Robert. Quais são os seus planos
para o futuro? – perguntou Surley. Como se aquilo fosse comum, Robert falou:
– Viajar, conhecer o tenebroso fundo do Mar
Sombrio e descobrir o que há nas Ilhas de Ouro.
– São desejos bem inexpugnáveis que
qualquer criança iria pensar – quando a Grande Cobra disse, ouviram-se risos no
salão.
Robert sentava num barril virado numa mesa
de trinta lugares. Estavam lá navegantes, artesãos e alguns poucos ferreiros. A
maioria servia-se de um bom vinho branco com pedaços de javali. O animal estava
assado e estirado na mesa com cebolas e verduras e um tomate nas presas. Robert
hesitava em comer as partes do animal, pois se lembrava da velha cozinheira que
em muitas vezes esquecia-se de lavar o bicho.
– Não são inexpugnáveis. Nada é
inexpugnável, caro Cobra.
Robert Gothd era esguio e pouco corpulento.
Vestia uma fina seda pintada de ouro. Sua mão dissera-lhe que o amarelo trazia
sorte os Gothd. Aliás, ele mesmo não sabia o que fazia ali. Ficar trabalhando
numa loja de pesca não era uma boa profissão. Já não aguentava ficar sempre
seguindo ordens de sua mãe. Queria ir para guerra. O pai foi retirado do poder
de Sublíder do Exército Sowliano após trocarem
a rainha por uma Kallister sem nenhum sentido profissional. A último opção era
que Sandor Gothd virasse Chefe Naval do Porto. Mas que chefe? O chefe dos
peixes que todo dia ia lavar os animais e depois por em barcos? Robert
cansara-se disso. Queria empunhar uma espada, não um peixe ou um caranguejo.
Robert levantou-se, limpou a boca e saiu
andando livremente a passos curtos pelo Castelo da Enseada. Que ótimo! Sua
futura esposa sumiu, ou melhor, teve um surto mental; o pai virou vendedor de
peixes; e mãe deixou de ser a Senhora Gothd para ser a Senhor dos Moluscos.
Nada
é inexpugnável, será que isso era verdade? Ou apenas uma grande farsa de
crianças? A mente do Gothd estava embaralhada, sem sentido algum. Foi aí que se
viu observando as embarcações indo embora, para longe, para a guerra naval.
Queria entrar lá e guerrear. Mas não podia.
Nada
é inexpugnável, a frase voltou à cabeça dele. Levantou-se e correu para
perto do último barco que partia para longe. Com a vontade de lá entrar, Robert
correu para um dos barcos e agarrou-se no casco do primeiro. Quando a
embarcação saiu, já no mar, seu coração disparou e ficou batendo
simultaneamente. Sentiu que ia explodir e foi aí que viu se dissipando na água.
Era como um ácido. Agarrado ao casco, Robert pulou na água e o barco passou por
cima dele, destruindo seu corpo. O Gothd deixou de sonhar para ver a realidade.
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